Henri
Wallon foi um homem memorável. Como suas contrapartes (Piaget e Vygotsky), sua
formação não contemplava apenas a Psicologia. Wallon nasceu em Paris, em 1879,
e graduou-se em Medicina e Psicologia. Também estudou Filosofia. Chegou a atuar
como médico, na Primeira Guerra Mundial, dispensando suas atenções às pessoas
com distúrbios psiquiátricos. Em 1925, criou um laboratório de psicologia
biológica da criança. Quatro anos mais tarde, tornou-se professor da
Universidade Sorbonne e vice-presidente do Grupo Francês de Educação Nova – instituição
que ajudou a revolucionar o sistema de ensino francês e a qual presidiu de 1946
até seu falecimento em 1962. Ao longo de toda a vida, dedicou-se a conhecer a
infância e os caminhos da inteligência nas crianças.
Militante
de esquerda, participou das forças de resistência contra Adolf Hitler e foi
perseguido pela Gestapo (a polícia política do regime nazista) durante a
Segunda Guerra. Em 1947, propôs mudanças estruturais no sistema educacional
francês. Coordenou o projeto Reforma do Ensino, conhecido como Langevin-Wallon
– um conjunto de propostas equivalente à nossa Lei de Diretrizes e Bases que
visava tornar o sistema de ensino francês mais acolhedor, acessível e eficiente.
Entre suas propostas estava, por exemplo, que nenhum aluno devesse ser
reprovado numa avaliação escolar. Em 1948, lançou a revista Enfance, que serviria
de plataforma de novas ideias no mundo da educação, o que rapidamente se tornou
uma fonte de conhecimento sumamente importante para educadores em geral.
Para
Wallon, a cognição tem base em quatro categorias cognitivas específicas, chamadas
“campos funcionais”. Esses campos são o movimento, a afetividade, a
inteligência e a pessoa, a saber:
·
Movimento:
O
movimento é um dos primeiros campos funcionais a se desenvolver e serve como
base para o desenvolvimento dos demais. Os movimentos em atividades cognitivas
podem ser divididos em duas categorias:
1) Movimentos instrumentais: são
ações executadas para alcançar um objetivo imediato e não é diretamente relacionado
com outro indivíduo;
2) Movimentos expressivos: tem
uma função comunicativa intrínseca,
estando usualmente associados a outros indivíduos ou sendo para uma estruturação do pensamento do
próprio movimento.
·
Afetividade:
Refere-se
à capacidade, a disposição do ser humano de ser afetado pelo mundo externo e interno por meio de sensações ligadas
a tonalidades agradáveis ou desagradáveis. A teoria de Wallon apresenta três
momentos marcantes e sucessivos na evolução da afetividade: emoção, sentimento
e paixão. Os três resultam de fatores orgânicos e sociais e correspondem a
configurações diferentes.
1)
Emoção: Predomínio da ativação
fisiológica;
2)
Sentimento: Ativação representacional;
3)
Paixão: Ativação do autocontrole.
·
Inteligência:
A inteligência depende do amadurecimento neurológico
e da influência da cultura para se desenvolver. Ela possui dois momentos
principais: a inteligência sensório-motora e a inteligência representativa. É para
que ocorra, então, a transição da primeira para a segunda que esses elementos são
necessários. A inteligência representativa iniciaria, desta forma, em uma fase
pré-categorial, onde o pensamento é sincrético (isso é, uma espécie de
“mistura” de vários elementos), permitindo a transição entre eles.
·
Formação
do Eu:
O
conceito de meio é fundamental na teoria Walloniana. Nela, a pessoa
constitui-se na integração de seu organismo com o meio, tendo o social como
elemento que sobrepuja o natural. As atitudes da pessoa são consideradas
complementares às do meio, tanto quanto determinadas pelas suas disposições
individuais e pelo papel e lugar que ocupa no grupo social.
A
criança aos poucos aprende a contagiar os adultos com sorrisos e sinais do
contentamento, o que caracteriza laços de caráter afetivo com aqueles que estão
à sua volta, e demonstra necessidade de manifestações afetivas, necessidade que
precisa ser atendida para que tenha um desenvolvimento satisfatório. A
sociabilidade da criança aumenta quando começa a andar e falar justamente
porque é nesse momento em que há a possibilidade de interação com o ambiente
que ela está envolvida.
Os
estágios do desenvolvimento humano segundo Wallon
·
1º
Estágio: Período impulsivo-emocional (“primeiro ano”):
Nesse
estágio, há o predomínio da emoção. O bebê não se distingue do mundo exterior,
ele “é o mundo”, não conseguindo se dissociar deste (quase que uma analogia ao
“O Estado sou eu” de Luíz XIV, pois, embora o bebê não seja absolutista e mau
caráter, ele provavelmente pensa que “O mundo sou eu”). É a afetividade e o
impulso emocional que orientam as ações do bebê em direção ao mundo exterior.
As pessoas ao seu redor atribuem significados a essas ações (não raramente
equivocados) e as intermedeiam com o restante do mundo exterior;
·
2º
Estágio: Período sensório-motor projetivo (“até o terceiro ano”):
Nesse
estágio, predomina a cognição. É a fase onde as ações da criança estão mais
orientadas para o conhecimento do mundo exterior. A aquisição inicial da
linguagem auxilia enormemente esse processo de conhecimento, pois é através dela
que a criança desenvolve uma melhor capacidade de ordenamento do mundo
exterior, que se dá marcadamente pela colocação do corpo em constante
movimento. Boa parte das intenções e representações mentais da criança é
exteriorizada pelo mecanismo de gestos. É a isso que se refere o termo projetivo desse estágio (isso é, é
através dos gestos e relativa capacidade de fala que a criança projeta tudo que se passa em sua cabeça,
respeitando-se seus limites). Há também a aquisição da marcha e da preensão;
·
3º
Estágio: Período do personalismo (“dos três aos seis anos”):
Nesse
estágio, predomina a emoção. É o estágio onde a criança anseia pela construção
de sua autonomia e trabalha incansavelmente para atingi-la. Essa busca se dá de
duas formas antagônicas: através da oposição
constante ao “outro” (isso é, quando a criança começa a rejeitar incisivamente
tudo o que antes era parte de sua identidade – muitas vezes atribuídas a elas
pelos pais, inclusive – para tentar construir uma imagem de si mais coerente
com o que ela realmente sente naquele momento do seu desenvolvimento.
Geralmente, é motivo de muita dor de cabeça e lágrimas para cuidadores menos
instruídos e mais emotivos; e através da imitação
/ incorporação
do “outro”,processo igualmente doloroso para aquele grupo de cuidadores, pois,
muitas vezes, suas crianças escolhem modelos (em inglês role models, literalmente “modelos de papel – no sentido de
comportamento – que são as pessoas, em geral celebridades ou pessoas mais
velhas, que os pequenos decidem imitar) não muito convenientes. Um exemplo
recente foi a da cantora Miley Cyrus, inicialmente lançada às telas como a doce
e encantadora Hannah Montana. Talvez, por passar pelo próprio processo de
oposição ao seu antigo “eu”, Miley “enlouqueceu” e deixou de ser “doce e
encantadora” para se transformar em uma celebridade que constantemente recebe o
tipo errado de atenção, seja por consumo de drogas, aparições nuas, ensaios
muito sensuais e constantes gafes online.
A preocupação dos pais, porém, não é com Miley e seu processo de oposição, e
sim que suas filhas passem a imitar Miley
como faziam quando ela “era” Hannah Montana. É esse o estágio que explica
também porque as “tribos urbanas” se formam: os adolescentes querem se libertar
e se distanciar da visão que os pais tem deles em busca de algo que os
represente melhor. Muitas vezes os chamam de “rebeldes sem causa” quando tudo
que eles querem é simplesmente redescobrir quem são, pois tudo mudou tão rápido
para eles que eles nem sequer se reconhecem mais.
·
4º
Estágio: Período categorial ou escolar (“dos seis anos até início da
adolescência”):
Continua
predominando a cognição. Nessa fase, a criança é capaz de sistematizar a realidade
através da esquematização de circunstâncias em quadros explicativos gerais. Ela
também se percebe como ser polivalente devido à observação da capacidade de
ajustamento de suas condutas às diferentes circunstâncias, por exemplo, quando
ela percebe que se porta perto dos amigos de forma muito distinta daquela que
se porta com os pais (daí o receio de que seus pais lhe façam “pagar micos”
perto dos amigos”, e essa situação se dá justamente por causa dessa
“personalidade dúbia”: eles não querem que os amigos o vejam como os pais os
vêem).
·
5º
Estágio: Período da predominância funcional (“adolescência”):
É
o período em que, teoricamente, o ser está “completo”. O adolescente é capaz
de atividades sociais, cerebrais e
intelectuais mais refinadas, começa a descobrir o que realmente lhe agrada (e
tem plena certeza de que nada “é só uma fase”, como os pais costumam dizer) e
começa a se reencontrar em si mesmo. Questionam, enfrentam, desafiam e ganham o
apelido de “aborrecentes”,pois desaprenderam que, para serem aceitos, é
necessário que obedeçam a todas as regras impostas a eles.
Plano
Langevin-Wallon
Formulado
entre 1945 e 1947, por uma comissão de 20 membros, nomeados pelo Ministério da
Educação Nacional, esse plano tinha como objetivo reformar o sistema de ensino
francês. Tal projeto tem esse nome, porque Langevin foi presidente da comissão
e após a sua morte, Wallon ocupou o cargo. Entre suas características
principais estavam o direito ao desenvolvimento pleno (apenas as aptidões de
cada indivíduo podem ser consideradas como limitações), dignidade igual para
todas as ocupações (não pode haver subestimação de uma em relação a outra, de
modo que um pedreiro teria a mesma importância e relevância social do
presidente do país), cultura geral, aproximação entre pessoas (exemplo de
afetividade), etc. Era dividido da seguinte forma:
·
Primeiro
Grau:
Primeiro ciclo (7 a 11
anos) – educação comum;
Segundo ciclo (11 a 15
anos) – Ciclo de orientação (várias opções para todos);
Terceiro ciclo (15 a 18
anos) – Ciclo de determinação: estudos teóricos (humanidades clássicas e
modernas, ciências puras), estudos profissionais (escolas profissionais:
comerciais, industriais, agrícolas e artísticas), estudos práticos (trabalhos
manuais).
·
Segundo
Grau:
Ensino propedêutico –
Obrigatório para todos os ensinos universitários
Ensino Superior –
Objetivo profissional, investigação científica e ensino puramente cultural.

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