sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Vygotsky: Suas teorias e a escola de Zagorsk

Continuando a minha sessão de postagens que foi mencionada aqui, hoje o estudioso é Lev Vygotsky, o meu favorito entre os quatro que vimos esse semestre (embora para mim, cujo foco é nos adultos, EJA, terceira idade e afins, Paulo Freire ainda seja o melhor, mas como não o vimos...). Hoje trago um paralelo entre as teorias dele e o documentário As Borboletas de Zagorsk, que pode ser visto nesse link aqui. Até mais!



Vygotsky possuía quatro pensamentos-chave (interação, mediação, internalização e ZDP), além de sua teoria sócio-histórico-cultural, que postula que o ser humano tem uma natureza social que é imprescindível para o seu pleno desenvolvimento. A linguagem, para Vygotsky, tem um papel fundamental no desenvolvimento do ser humano, pois é através dela que os conhecimentos são passados adiante, geração após geração.

Dito isso, é importante ressaltar que Vygotsky não era inatista, ou seja, ele não acreditava que o ser humano não nasce com esse ou aquele “talento nato”, mas sim, que nasce dotado de um “potencial para desenvolver potencialidades”.

Portanto, podemos ressaltar as seguintes correspondências entre suas teorias e o documentário acerca da escola de Zagorsk:


·         Interação
Para Vygotsky, esse é o fator fundamental no desenvolvimento das funções psicológicas humanas e a linguagem é a ferramenta mediadora da transmissão de informações.

O documentário cita Vygotsky inúmeras vezes, afirmando que “para ele, linguagem é poder”. A relação entre os alunos de Zagorsk e o conceito Vygotiskiano de interação fica clara quando vemos a importância que a escola dá à linguagem, pois ela faz enormes esforços para torná-la acessível a um público que até então se acreditava completamente incapaz de adquiri-la (surdo-cegos). Lá, os alunos não ficam isolados, eles tem contato em tempo integral uns com os outros e com os professores, não ficam trancados, vão a igrejas, parques, enfim, têm uma vida cheia de interação com o outro e com o meio, tal como Vygotsky postula ser essencial para que o desenvolvimento de alguém ocorra da melhor forma possível.

Essa interação se dá por meio de vários mediadores (explicaremos melhor a seguir): linguagem manual, percepção de vibrações sonoras e compreensão do braile (para que os alunos possam voltar a apreciar música e literatura), etc. Uma das ex-alunas é casada, mãe e psicóloga.

·         Mediação
É a forma através da qual o indivíduo interage com o meio e com o outro (como citado acima), e também como as Funções Psicológicas Superiores (pensamento, emoção, sensação, memória, atenção, percepção, etc) se desenvolvem. Essa interação se dá por meio de elementos mediadores, quaisquer sejam (no documentário havia amplificadores de voz, varas, fones, óculos, etc).

·         Internalização
É o processo pelo qual o indivíduo torna interna a noção material das coisas, a noção de que determinados objetos possuem finalidades construídas socialmente para dar uma base comunicativa entre o sujeito, o objeto e o outro. Ocorre quando, por exemplo, apresentamos a alguém o conceito de “cadeira”: não quer dizer que o objeto em si, que tomamos como exemplo, seja a única possibilidade de cadeira que exista, mas sim que cadeira é tudo aquilo onde se pode sentar.

·         Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP)
Antes de compreender esse conceito, é necessário compreender outro: A zona de desenvolvimento atual/real. Este refere-se ao estado atual do indivíduo, o que ele já tem consolidado e é capaz de realizar sozinho, sem a ajuda de qualquer mediação ou instrução por parte de alguém mais experiente; A ZDP refere-se a onde o indivíduo pode chegar com a ajuda de outrem, o potencial que ele pode alcançar até ser capaz de realizar por conta própria.

Esse conceito é o “very core” do documentário sobre Zagorsk, pois os alunos todos se encontram trabalhando em sua ZDP, com a ajuda de mediadores e de instrutores, para sair de sua ZDA para atingi-la.

Em tempo, gostaria de acrescentar que, além do documentário, temos muito da teoria vygotskiana em um filme chamado Nell. Nele, uma mulher (Nell) foi criada apenas por sua mãe (que logo falece) em meio a um bosque. Crescendo isolada literalmente “no meio do mato”, os prejuízos ao seu desenvolvimento, causados pela falta de interação, são gritantes. Ela não fala em nenhuma língua conhecida, desenvolveu uma linguagem própria que possui apenas poucas palavras. Quando um grupo de estudiosos a leva para a “civilização”, existe uma cena em que ela vê um homem tirando a camisa e imita o comportamento levantando o vestido que usava até acima do pescoço.


Podemos associar isso às teorias de Vygotsky porque a falta de interação defasou seu desenvolvimento. Não aprendeu a falar em uma língua que pudesse ser compreendida, não internalizou a função de objetos simples, como botões e máquinas fotográficas, nem conseguiu compreender que certos comportamentos (como tirar a roupa em público) são inadmissíveis na sociedade em que vivemos.

Outra manifestação das teorias de Vygotsky é o tradicional canto gutural dos mongóis. A cultura desse tipo de música fez com que eles conseguissem modificar sua própria capacidade física a ponto de serem capazes de produzir dois sons ao mesmo tempo. É a cultura intervindo no biológico. Um belo vídeo (passado por nós pela nossa professora Simone) de um cantor performando esse tipo incrível de canto pode ser visto clicando aqui.

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