sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Piaget - Estágios, (Des)Equilíbrio, Assimilação.

Seguindo a ordem mencionada na postagem anterior. vamos ver agora Piaget.





Jean Piaget, suíço por excelência, foi condenado e louvado por não querer fazer apenas mais do mesmo. Desafiando o intelecto de seu tempo, ele não se interessou pela farsa da psicometria mais do que pela beleza e a riqueza do mundo de possibilidades que desabrochava quando alguém “errava” um daqueles testes, e sua mente inquieta queria entender aquelas divergências.

Sua curiosidade o levou a tentar desvendar a forma como a inteligência humana se constrói ao longo da vida. Focando sua atenção em bebês e crianças, aos quais pouca (ou nenhuma) atenção era dirigida até então, ele revolucionou os campos de desenvolvimento e aprendizagem através de um estudo de caso em que ele pode, incansavelmente, observar o desenrolar de três Leis e quatro Estágios pelos quais todos passamos e todas as crianças que ainda estão por vir hão de passar também.

Infelizmente, seus estudos foram mal interpretados: muita gente não compreendeu que os dados que ele divulgou (acerca das leis e estágios) não eram universais e aplicáveis a todas as crianças do mundo de forma homogênea, mas sim, meras observações sobre os resultados aos quais ele chegou com aquele grupo específico de crianças com os quais ele trabalhou, de forma descritiva e não prescritiva. Há também os responsáveis pelo fato de Piaget ter levado para o túmulo o desejo de que tivesse conseguido fazer as pessoas entenderem que ele não era inatista. E hoje, muita gente diz que suas escolas seguem o modelo “piagetiano” sem fazer a menor idéia do que isso realmente significa, contribuindo apenas para que o legado de Piaget seja cada vez mais deturpado.

Com relação às Leis, Piaget as descreve como a seguir. É importante observar que essas idades não são prescritivas, e sim, descritivas do que ele observou no grupo em que realizou aquele estudo de caso que levou a essas conclusões.

1) Lei da Conservação da Matéria (entre 5 e 7 anos de idade)

Nesse estágio, a criança consegue finalmente perceber que, embora os objetos possam ter formatos diferentes, eles derivam da mesma matéria. Ou seja, a criança consegue compreender que uma bola de massinha “é a mesma coisa” que uma cobra de massinha, que um chocolate derretido e modelado em outro formato é o mesmo chocolate de antes (como quando as mães compram aquelas barras grandes e transformam em ovos), etc.

2) Lei da Conservação do Peso (entre 7 e 9 anos de idade)

É nesse estágio em que a criança consegue compreender que os objetos, mesmo tendo formatos diferentes, podem ter pesos iguais. A famosa “piada” em que se questiona se “1kg de algodão pesa mais ou menos do que 1kg de chumbo” finalmente começa a fazer sentido para ela (embora ainda se possa enganar muitos adultos menos atentos com ela).

3) Lei da Conservação do volume (entre 9 e 11 anos de idade)

É quando a criança reconhece que os objetos, mesmo tendo formatos diferentes, podem ter o mesmo volume, pois a matéria pode assumir variadas formas. É quando ela entende que uma cenoura inteira = a mesma cenoura ralada, e que um pedaço de queijo fatiado tem o mesmo volume de quando tinha quando era uma peça inteira.

Já sobre os estágios, Piaget descreve suas descobertas da seguinte forma:

1) Sensório-motor (do nascimento até 1 ano e meio)

Como o próprio nome sugere, esse estágio é caracterizado pela capacidade natural e inata de todo ser humano a utilizar seus sentidos e movimentos menos refinados para solucionar problemas/conflitos do seu cotidiano, dentro das limitações de sua idade e capacidade cognitiva. O bebê está “em comunhão” com o mundo à sua volta, percebendo apenas o que “existe ou não” naquele determinado tempo presente, satisfazendo as necessidades biológicas com a ajuda da pessoa cuidadora. Nesse estágio, o bebê não tem ainda a ciência de “mãe” e “pai”, apenas de que, quando ele chora, por qualquer que seja o motivo, “alguém” vai “existir” aqui e agora para ajudá-lo.

2) Pré-operacional (até os 7~8 anos de idade)

É nesse estágio em que se desenvolve a linguagem oral da criança, onde ela consegue desenvolver a capacidade de representações simbólicas e abstratas (mentais) do mundo à sua volta. É nessa fase em que ela vai conseguir associar a palavra “au au” a cães (e talvez outros quadrúpedes) mesmo que ela não esteja, necessariamente, vendo um no momento. Começa a ser possível uma noção de passado e futuro que não existia no estágio anterior.

3) Operacional concreto (dos 7~8 anos até os 11~12 anos de idade)

Nesse estágio, a capacidade de associação das crianças está mais refinada. Ela é capaz de compreender que, se A= B e B=C, então A=C. O raciocínio matemático e a capacidade de operar com o mundo à sua volta estão desenvolvidos, possibilitando que a criança seja capaz de relacionar, comparar diferenças e semelhanças, classificar segundo características, etc. A criança também é capaz de perceber que um objeto pode se transformar em outro sem perder suas características originais (pois ocorrem simultaneamente às Leis de conservação de Peso e Volume).

4) Operacional formal (dos 12~13 anos até os 15~16 anos de idade)

É nesse estágio que os jovens conseguem teorizar. Eles se tornam capazes de manipular ideias tanto quanto objetos, raciocinar verbalmente e pensar hipoteticamente, refinando a consciência de passado e futuro. São capazes de raciocinar com base em apenas afirmações, sem a necessidade de manipular alguma plataforma que ajude a compreender a teoria.

Além dessas Leis e Estágios, Piaget também apresenta os conceitos de acomodação, assimilação e equilibração. A esses conceitos também está atrelado o conceito de esquema mental.

Esses conceitos são melhores compreendidos se falarmos de exemplos. Pensemos num caso que acontece comigo. Eu sempre fui fã de videogames. Porém, o console que eu sempre tive foi o PlayStation, que, nas versões 1, 2, 3 e agora 4, nunca mudou o formato de seus controles, o botão de ação sempre foi o X (e o botão de selecionar itens, por exemplo), e o de cancelar ações sempre foi o O. Eu já sou perfeitamente adaptada a jogar com um controle de PlayStation e nunca confundo os botões. Ou seja, eu já tenho um esquema mental de como um controle de console funciona e que botões devo apertar para realizar o que desejo. É um sistema que já está em equilíbrio, acomodado no meu esquema mental de como se deve agir para controlar o personagem na tela.

Porém, uma vez eu joguei um jogo num console da marca concorrente, o Xbox. No controle desse console, X é um botão que corresponde a uma função totalmente diversa do X do PlayStation, de forma que, sempre que eu tentava jogar alguma coisa e meu irmão (que joga mais Xbox do que eu) dizia “aperta X!” eu acabava recorrendo ao meu esquema anterior, onde X está, no controle do PlayStation, onde, no controle do Xbox, está o botão A, e acabava não conseguindo realizar ação nenhuma. Quando queria cancelar uma ação, meu irmão me dizia “aperta B!” e eu ficava sem saber onde está o botão. Com o tempo, consegui associar a posição pela coincidência de que “O” (que os jogadores chamam de “bola”) começa com B, e O e B estão na mesma posição, então essa dificuldade eu superei mais rapidamente, e também consegui aprender as outras posições.

A dificuldade está toda concentrada no conceito de assimilação, uma etapa em que usamos o esquema anterior para resolver um conflito (o problema apresentado, que no caso era o simples ato de jogar, e que causa desequilíbrio) em que ele não serve. Enquanto eu estava na fase de assimilação, o meu esquema me fazia acreditar que o X estava no lugar de sempre, que agora era o botão A, e eu acabava não conseguindo realizar nenhuma ação no jogo. Com a prática de jogar mais jogos no Xbox, eu aprendi a jogar nesse controle também. Ou seja, acomodei o novo esquema mental, que X está em lugares diferentes nos dois controles. Dessa forma, solucionado o conflito através da acomodação, reencontrei o equilíbrio perdido diante do desafio provocado pela assimilação, e agora domino a “geografia” dos dois controles.


(Controles do PlayStation e do Xbox, respectivamente)

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