terça-feira, 1 de dezembro de 2015

A boa filha à casa torna (ou Drielesséia)

Boa noite.

Esses últimos dias tem sido conturbados.

Como parte da avaliação, essa disciplina (FDA) e uma outra (Psicologia da Educação) pediram um projeto. Podia ser qualquer coisa, então eu elaborei o projeto que batizei de Macieiras; esse projeto tinha o objetivo de oferecer a meninas do Ensino Médio aulas de reforço para compensar o tempo que elas perdem com trabalhos domésticos, que na maioria das vezes fica só nas costas da mulher. Fui a mais de quinze escolas e NENHUMA aceitou que eu o desenvolvesse: fui chamada de machista (!), PETRALHA, COMUNISTA, fanática por ideologia de gênero. Também devem ter me chamado de exterminadora de unicórnios pelas costas.

Quando finalmente aceitei a derrota do Projeto Macieiras, uma greve suuuuper longa foi deflagrada.

Para não me atrasar, enquanto a greve não acabava tentei desenvolver um outro projeto, com outra colega de sala que não a Carol, sobre transsexualidade. Esse projeto não deu certo por falta de participantes trans. Não achamos coerentes duas mulheres cisgêneras falarem sobre transsexualidade e abortamos o projeto. Acredito que essa minha colega tenha até trancado FDA, porque nunca mais a vi. Segunda grande derrota.

Daí comecei um projeto com a Carol, sobre o uso de português em cursinhos de inglês. Ele também não foi pra frente por razões inúmeras.

Por fim, sugeri usar um artigo que escrevi (para ITL, no segundo ou terceiro semestre) sobre gêneros literários para criar uma oficina de teoria literária para os alunos do ensino médio. Quando a greve finalmente acabou, o prazo estava apertado. Nenhuma escola abriu as portas pra gente por causa das reposições das aulas perdidas durante a greve. Apenas uma concordou, mas ela pediu TANTA documentação, foi tanta burocracia que tive de desistir dela. Chegaram a pedir um encaminhamento assinado pelo reitor da UnB. Quase perguntei se não queriam também os mapas astrais e o tipo sanguíneo da professora, da Carol e o meu também.

Foi quando decidi dar aula para o ensino fundamental ao invés do médio, e quando decidi ir à escola que cursei o ensino fundamental fazer o projeto. Lá, fui recebida de braços abertos por pessoas que foram minhas professoras. Tudo parecia que ia terminar bem.

Poooooooorém, a professora, que gentilmente nos cedera sua aula para realizarmos a primeira das três partes do projeto, num dia que ela não estaria mesmo na escola, voltou atrás. Depois dessa aula, ela precisou fazer a revisão para a Prova Brasil e depois simplesmente nos cortou. Não permitiu mais que fizéssemos o trabalho com as turmas dela. Até hoje não sei o motivo. Nós achamos que depois dessas duas aulas (a da revisão e a da prova mesmo) poderíamos retomar o projeto, mas não.

Fui procurar outra escola, mas a coordenadora me sugeriu fazer o trabalho com outra professora ali mesmo. Fiquei reticente porque não achei que esses alunos (da sétima série: os anteriores eram da oitava) iam absorver o conteúdo... Mas a professora me disse que ela ia mesmo dar aula de gêneros literários como parte do currículo, então seria bom para todas nós. Ela nos cedeu TODAS as suas aulas da semana do dia 1 de dezembro até o dia 8, e nós fomos dar aula.

Bom, eu fui. Carol estava se sentindo mal, então eu fui só. E foi bem interessante. Pela experiência que tivemos quando demos aula nas turmas da oitava série, a presença de ''gente nova" na sala é motivo de alvoroço. Os alunos ficaram muito excitados. Queriam saber sobre a gente, o que gostávamos de fazer, como era estudar na UnB, qual era o significado da minha tatuagem. Os alunos que lecionei hoje ficaram pasmados de alegria ao poderem escrever um texto de tema livre. Houve quem escrevesse sobre o Capitão América. Thor. Goku. Batman. Cães. World of Warcraft. Senhor dos Anéis. Quando terminou o texto, uma aluna veio timidamente perguntar se ela podia ouvir música no fone de ouvido, já que ainda restavam dez minutos de aula. Eu permiti e ela me abraçou e agradeceu, hahaha. Os alunos acharam máximo eu entender desse universo nerd de games, rpg, quadrinhos. Todos quiseram conversar sobre essas coisas. TODOS morreram de rir da forma como os slides foram escritos: bem informais, linguagem bem largada. Eu também falei de forma "largada". Eles riram muito e se divertiram muito hoje.

Acredito que isso seja reflexo da educação precária que temos aqui. Existe um mundo de responsabilidade nas costas do professor, que acaba se distanciando dos alunos por não ter tempo de conhece-los melhor, conversar e interagir com eles. Vygotsky e Wallon ficariam de coração partido. Acho que entra também a questão da austeridade das aulas. Só se fala de literatura canônica. Só se escreve ensaios para a redação do ENEM. Não é à toa que a maioria dos alunos detesta literatura: ela nunca é usada para o lazer e o prazer. É sempre a mesma coisa, os mesmos autores, os mesmos livros, as mesmas cobranças. É de arrasar qualquer adolescente. Até porque livros como O Guarani são bem chatos mesmo.

Enfim, essa foi minha experiência de hoje. E amanhã tem mais!!

Bjos!

Um comentário:

  1. Até hoje lembro que no meu oitavo ano do fundamental tivemos que ler Senhora para fazer a prova bimestral. Aquilo foi tão traumatizante, tão chato, tão maçante que mesmo após quatro anos da minha graduação voltados para a literatura continuo tendo a mesma reaçáo ao ler um clássico. Uma abordagem diferente nesse primeiro contato com a literatura poderia ter feito toda a diferença hoje em dia. É urgente repensar o modo como estamos formando os futuros leitores, e o trabalho que fez com essa turma nesse sentido foi sem dúvida extraordinário. Parabéns pelo projeto!

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