Não sou uma pessoa de contar vantagem. Porém, posso dizer que tenho certa experiência em salas de aula (mais de uma década).
No entanto, nada do que fiz até hj me preparou para a experiência que eu tive com uma das turmas.
O resumo da ópera é o seguinte: Carol e eu terminamos nosso trabalho, demos aula e colhemos os textos e questionários de todas as turmas da professora Zuleika. Mas ela precisou se ausentar da escola por um tempo e pediu para que a gente a substituísse como professoras substitutas mesmo.
Eu aceitei a tarefa, animada com a "missão" de dar minha primeira aula oficial como "professora" em uma escola "escola", e não cursos de inglês. E dando um conteúdo "conteúdo" mesmo, não oficinas (como eu já fazia no PIBID e nessa oficina que gerou todo esse projeto).
Foi tudo tranquilo no começo, e eu não sei exatamente quando a coisa desandou. Uma das turmas começou a se comportar muito mal MESMO e à medida que os alunos foram percebendo que eu não consegui controlar um grupo (que antes era pequeno), alunos que estavam quietos começaram a badernar também. No fim, a sala se transformou num caos tão completo que eu precisei pedir que uma das alunas chamasse a coordenadora para interceder por mim, porque eu vi que eu não tinha mais nenhuma fagulha de autoridade sobre aquela sala, fui sumariamente sobrepujada pela gritaria, algazarra, brigas, arremessos de caderno também, mas abafa e afins.
Quero frisar aqui que essa foi uma atitude de desespero mesmo. Fui aluna da Maria Abadia (antes minha professora de Ciências e hoje a coordenadora) e se tem uma coisa que eu me lembro tão claramente quanto o meu próprio rosto é medo que TODOS OS ALUNOS tinham dela. Quando ela entrava na sala, o silêncio era imediato e absoluto. Acho que se os alunos tivessem o poder de fazer o sangue parar de circular e o coração parar de bater até isso eles fariam para evitar qualquer ruído. E apesar de gostar mto dela eu tenho vívidas lembranças (de fatos que ocorreram quatorze anos atrás) do terror que eram os constantes esporros, e de como eu me sentia dolorosamente injustiçada, pois eu era boa aluna, quieta e com boas notas, deveres sempre em dia... Não era justo, eu pensava, que eu levasse bronca por algo que eu não era responsável. Eu gostava mto dela mas detestava o clima ditatorial que emanava dela.
Isso acabou se refletindo na minha maneira de dar aula. Sempre gostei de ser amiga da turma, conversar, me aproximar deles. Isso tinha dado certo até então. Mas hoje aconteceu algo que a Simone sempre disse: "quando o professor é muito deboísta, os alunos massacraram ele".
Dizem que quem apanha nunca esquece o quanto doeu apanhar, mas eu ainda não tinha sentido a dor de ter de bater. Precisar chamar a Abadia me deu a sensação de ter assinado um atestado de incompetência. E eu finalmente entendi o porquê dos professores darem uma bronca coletiva quando ~claramente~ alguns alunos estavam quietos e o porquê de se desculparem depois. Me segurei muito para não chorar hoje porque foi a primeira vez que me senti tão humilhada e desmoralizada, com alunos fazendo o que queriam, rindo de mim (literalmente, eles falavam comigo / de mim e começavam a gargalhar). Me senti um palhaça, um lixo.
A bronca que a Abadia deu me fez rever um filme na cabeça. Dos dias em que eu era aluna e ignorava aquela bronca porque eu sabia que era inocente. Só que dessa vez eu não era inocente. A turma estava passando aquilo por conta do meu despreparo e da minha falta de assertividade. Acho que as palavras dela doeram mais em mim do que neles. Eu só queria um buraco para me enfiar. E entendi pq alguns professores tratam os alunos com punhos de aço às vezes: porque se vc dá pouquinho de liberdade (tipo deixar irem ao banheiro sempre que pedem), alguns alunos vão entender isso como "se aqui pode tudo, vou tacar o terror".
Hoje foi a experiência mais desagradável que eu já tive na minha vida de professora. Me custou a saúde das cordas vocais (estou sem voz de tanto gritar pedindo por silêncio, que ironia, não?). Mas foi importante. Me ensinou uma lição preciosa sobre LIMITES. Aprendi que existe uma linha muito tênue entre ser a "professora legal bff dos alunos feat zuera e nerd" e ser a "professora que não merece respeito e não controla os alunos", e quando você deixa os alunos pularem da primeira zona pra segunda... Francamente, se não fosse pela segurança que eu tenho na minha decisão de carreira, pela sólida experiência que eu tenho, pela confiança que tenho no meu taco e do gosto que eu tenho por lecionar, eu ia sair da aula de hoje direto para o SAA da UnB e pedir para trancar a minha licenciatura, porque a humilhação que eu passei hj, a vergonha, e o sentimento de que sou incapaz como professora foram tão grandes que a vontade foi de nunca mais dar uma aula de novo. Mas isso foi bem passageiro e depois que me acalmei eu entendi duas coisas:
1) O limite entre ser uma professora deboas e uma marionete da turma;
2) O real significado de algo que a Abadia disse no primeiro esporro que levei dela, na quinta série: "os justos pagam pelos pecadores".
E... O que não te mata te deixa mais forte.
Fica a lição. Foi extremamente enriquecedora e foi uma das lições mais importantes que aprendi na minha licenciatura.
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